A planta da cannabis produz mais de cem substâncias chamadas canabinoides. Duas delas concentram quase toda a pesquisa e quase todos os produtos vendidos no Brasil: o CBD (canabidiol) e o THC (tetrahidrocanabinol). Saber a diferença entre os dois ajuda a entender a sua receita e a conversar melhor com o seu médico.
Como os canabinoides agem no corpo?
O nosso organismo tem um sistema próprio, o sistema endocanabinoide, que participa da regulação da dor, do sono, do humor, do apetite e da inflamação. Ele funciona por meio de receptores espalhados pelo cérebro e por outros órgãos. Os canabinoides da planta interagem com esse sistema, cada um de um jeito.
O que é o CBD?
O CBD não causa a sensação de "barato". Ele age de forma indireta no sistema endocanabinoide e em outros alvos do corpo. É o canabinoide com a evidência mais forte em epilepsias de difícil controle, como as síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut, onde ensaios clínicos mostraram redução no número de crises.
Também é estudado em ansiedade, sono e dor, com resultados ainda em construção. Costuma ser bem tolerado, mas pode causar sonolência, alteração no apetite, diarreia e mudança em exames do fígado, e interage com vários remédios.
O que é o THC?
O THC é o canabinoide responsável pelo efeito psicoativo da planta. Em doses médicas bem ajustadas, ele é usado principalmente em:
- dor crônica em adultos, em geral com benefício modesto;
- espasticidade na esclerose múltipla;
- náusea, vômito e falta de apetite em quem faz quimioterapia.
Por ter efeito no sistema nervoso, a dose de THC começa baixa e sobe aos poucos. Tontura, boca seca, sonolência e aumento da frequência cardíaca são os efeitos indesejados mais comuns.
Por que tantos tratamentos usam os dois?
Em várias situações, a combinação de CBD com uma pequena quantidade de THC funciona melhor do que um deles sozinho. Os produtos costumam ser descritos assim:
- CBD isolado: só canabidiol;
- amplo espectro (broad spectrum): vários compostos da planta, sem THC;
- espectro completo (full spectrum): vários compostos, incluindo THC;
- proporções como 1:1 ou 20:1: a relação entre CBD e THC no frasco.
A escolha depende do seu diagnóstico, da idade, dos remédios em uso e de condições como problemas cardíacos, gravidez ou histórico de transtornos psiquiátricos.
O que muda na receita?
No Brasil, o tipo de receita depende do teor de THC do produto. Produtos com até 0,2% de THC e produtos com mais de 0,2% seguem exigências diferentes, hoje definidas pela Anvisa na RDC 1.015/2026, que substituiu a RDC 327/2019 em maio de 2026 (veja o que mudou). O médico indica o tipo correto no momento da prescrição.
O melhor produto não é o mais forte nem o mais caro: é o que tem a composição certa para o seu caso, na menor dose que traz benefício.